O meu artigo mais recente publicado na edição de Julho-Agosto de 2016 da Revista Mulher Criativa. Muito obrigado pela honra!
26/07/2016
04/03/2016
A Vida Não é Uma Linha Reta
Absorto na
minha leitura, regresso a casa sentado no comboio. Subitamente, de outra
carruagem surge um garoto dos seus 12 anos, cabelo alourado, figura franzina e
o olhar visivelmente assustado. Agacha-se ao meu lado, usando-me como escudo
para se esconder de algo...ou de alguém. "Está tudo bem?" - pergunto,
surpreendido com a sua atitude. Balbuciando, o miúdo faz-me entender que está
em fuga de alguém que o persegue. O seu olhar atemorizado leva-me a mudar para
outro lugar no meio da carruagem, onde ambos nos podemos sentar junto de outros
passageiros e dali procuro avistar quaisquer indivíduos suspeitos ao correr de
toda a longitude do combóio, mas em vão.
Prestes a
chegar ao meu apeadeiro, continuo sem vislumbrar qualquer movimentação nas
outras carruagens que justifique o nervosismo do rapazito, evidente no seu
olhar e comportamento desassossegado. O combóio detém-se na estação.
Despeço-me. Face a um compromisso familiar, tenho que saír. Não... escolho
saír. Precisamente nesse momento, cerca de três adolescentes de considerável
estatura transitam de uma carruagem para aquela de onde eu justamente acabara
de saír.
Em segundos, da
plataforma da estação cruzo olhares com o rapaz no interior da carruagem,
através da janela desta, e imediatamente percebo a razão de todo o seu pavor.
Isso deve ter ficado bem visível no meu rosto pois, por gestos, pergunta-me se
"eles" vêm lá. Pesaroso, confirmo com um aceno.
Enquanto o
combóio retoma a sua marcha, vejo as silhuetas dos jovens que avançam pelo
interior da composição e a última cena que me fica na retina é uma expressão de
profundo desespero e agonia no rosto do catraio, enquanto esconde a cabeça
entre os joelhos depois de os avistar.
Deste episódio
restam apenas alguns "ses". Se o houvesse feito saír comigo naquela
estação? Se eu tivesse permanecido com ele até o deixar em porto seguro? Mas,
para isso, eu teria que interromper a minha agenda, rever a ordem das minhas
prioridades, relegar para segundo plano os meus compromissos inadiáveis e
focar-me no que era realmente importante naquele momento e não no que era
urgente.
Que
dificuldade, por vezes, em interromper os nossos assuntos pessoais para
oferecer um minuto de atenção, em nos desviarmos alguns metros do nosso trajeto
num gesto de solidariedade ou gastarmos um pouco do nosso preciosíssimo tempo a
favor de alguém atrapalhado e aflito. Mantemo-nos inflexíveis no rumo que
traçámos e não admitimos interrupções. Mas até o mais básico GPS consegue
calcular rotas alternativas àquela que planeámos inicialmente...
Cada encontro
inoportuno que baralha os nossos planos e nos interrompe a marcha e o
raciocínio, sacode-nos e relembra-nos que não somos o centro do universo, que
há na vizinhança outras vidas, outros mundos além do nosso.
Há uma história
bíblica que nos remete precisamente para esta realidade, a do Bom Samaritano,
no evangelho de Lucas (capítulo 10:30-35). Neste relato, um homem em viagem é
atacado por assaltantes que o deixam espancado e inconsciente. É avistado
primeiramente por um sacerdote e depois por um levita, figuras de autoridade
religiosa, mas ambos, mesmo que sentindo pena do homem, preferem fingir nada
ver, passando ao largo e seguindo o seu caminho. Ainda hoje, não é invulgar
vermos cenas como esta, sobretudo nas grandes metrópoles. A história termina
quando surge o bom samaritano, o qual não só se desvia do seu caminho para
socorrer um homem roubado e espancado, como separa do seu tempo e recursos para
o ajudar. E nós, como reagimos quando nos interrompem o descanso, o sono,
uma tarefa ou projeto em que estamos envolvidos?
Erramos ao
partir da premissa que se não cuidarmos da nossa vida e interesses, mais
ninguém o fará, quanto mais gastarmos tempo com os problemas dos outros. A vida
de Job, um milionário que perdeu todos os seus bens e família numa série de
catástrofes, mudou drasticamente após este interceder a favor de alguns dos
seus amigos em dificuldades (Job 42:10).
Quando nos
desviamos momentaneamente da nossa rota e disponibilizamos do nosso tempo, não
perdemos, todos ganham. E, se no momento parece que saímos a perder, é apenas
para ganharmos mais adiante. É que sempre haverá um dia em que precisaremos que
alguém se desvie do seu caminho por nossa causa. Afinal, a vida não é uma linha
reta.
Fotografias: Carlos Pinto Leite
02/10/2015
Voto na Matéria
Domingo vou votar. Não prescindo. As eleições legislativas são
indiscutivelmente uma data de suma importância no calendário daqueles que, como
eu, tencionam exercer o direito de voto. Cada voto
conta e pode fazer a diferença. Por um voto se ganha, por um voto se perde.
Já outros reagirão com um
encolher de ombros. Desiludidos com a classe política, desmotivados pela atual
situação económica e social, não há personagem carismática ou cor política que
os convença a ir depositar o voto à boca das urnas. "São todos
iguais!" diz o povo.
Independentemente da sua posição
face à vida política, esteja bem consciente do que significa alhear-se do ato
eleitoral.
Significa abdicar de um direito
ainda hoje negado a milhões de pessoas em vários países.
Significa que é pouco provável
que os seus motivos pessoais de
descontentamento se alterem, pelo simples facto
de que nada fez para isso.
Significa que, contanto que haja casa,
emprego e a conta bancária garantidos, pouco importa quem governa.
Significa o risco de entregar o rumo
do país, e da sua própria vida, em mãos menos sérias ou competentes para essa
tarefa.
Significa indiferença e
passividade.
Significa que não se importa que
sejam os outros a decidir por si em questões fundamentais. Então, talvez não se
importe que eu entre em sua casa, lhe diga como deve gerir o seu orçamento,
altere a disposição da mobília e estabeleça novos horários para si e toda a sua
família, certo?
Não é todos os dias que o cidadão
anónimo tem oportunidade de fazer ouvir a sua voz e de intervir ao nível das
esferas de decisão da sociedade. "Que diferença faz um voto a mais ou a
menos?". Respondo com outra pergunta: e se todos pensarem dessa maneira?
A abstenção é como um barco à
deriva e sem timoneiro, levado pelas ondas e vento. Quando bater com o nariz na
porta, lembrar-se-á disso.
Resigne-se. Isso, vá! Desista!
Deixe-se estar no sofá. Coce a barriga. Vá antes à praia. E depois, não se
esqueça de amaldiçoar os políticos, de reclamar e dizer que só querem poleiro, quando
você nem por uns minutos foi capaz de deixar o seu para exercer o voto.
Carlos Pinto Leite
20/07/2015
O HOMO PARENTALIS
“E nos predestinou para sermos
seus filhos adoptivos, através de Jesus Cristo, segundo o propósito da sua
vontade” (Efésios 1:5)
Após algumas conversas e brincadeiras que estabeleceram uma
ponte para nos conhecermos gradualmente, o convite surgiu inesperado:
"Anda lá a casa comer a pizza que a minha mãe vai fazer!", rogou o
garoto de 10 anos, acompanhado da sua mana, dois anos mais nova e do mais
novito com 6 anos. Vinte e cinco anos depois, já não me lembro como, mas é certo
que fui! Após esse episódio, as minhas visitas àquela casa sucederam-se,
irregulares a princípio mas, depois, cada vez mais consistentes com o passar do
tempo. Finalmente, um dia fiquei para não mais ir embora.
Tudo começou com uma amizade sincera e um simples convite para comer "a melhor pizza do mundo". Anos mais tarde, vim a saber que a autora dessa obra de arte gastronómica tinha sido a última a saber, furiosa, que haveria uma quinta pessoa a sentar-se à sua mesa naquela noite.
Tudo começou com uma amizade sincera e um simples convite para comer "a melhor pizza do mundo". Anos mais tarde, vim a saber que a autora dessa obra de arte gastronómica tinha sido a última a saber, furiosa, que haveria uma quinta pessoa a sentar-se à sua mesa naquela noite.
Nessa altura, internet e redes
sociais eram apenas ficção científica, por isso o tempo era mais preenchido
fora de casa e para estarmos juntos. Coisas tão simples como saírmos os cinco
(as crianças, a mãe e eu) à tarde em longos passeios a pé pelo campo para
regressarmos horas depois, esfomeados e com braçadas de flores silvestres. Não
faltavam pretextos (e quem precisa, quando a fome aperta?) para deliciosos
lanches ao fim de semana. Retiros de jovens e reuniões da igreja eram também um
ponto de encontro frequente.
Hoje, olhando para trás, era como se estivesse sob exame de admissão,
pondo à prova a minha capacidade de relacionamento e ajustamento com os garotos
em diversos cenários e situações. Maiores desafios surgiriam: uma viagem a
Lisboa nos transportes públicos, sozinho com os pequenos, a fim de tratar da
renovação dos seus documentos de identificação ou levá-los em passeio num
período de férias, sempre crítico para qualquer mãe trabalhadora. Mais tarde, 3
semanas de férias de Verão juntos acabariam por selar um vínculo irreversível entre
nós cinco.
Um grau crescente de confiança que me foi atribuído pela mãe dos cachopos não
veio sem um aumento do nível de responsabilidade para com eles. Um telefonema
da mana do meio a implorar a minha presença em casa, levar um lanche à escola
do mais novo, escoltar o mais velho no caminho a pé até à escola por causa do bullying de alunos mais crescidos ou
assegurar as horas de jantar e dormir durante uma ausência necessária da mãe. Os
devocionais faziam parte regular da nossa vida familiar, bem como orações
noturnas à cabeceira das suas camas, durante o seu sono, quando percebíamos
alguma dificuldade ou ameaça ao seu bem-estar.
Com a desagregação do modelo tradicional de família, nada
mais vulgar hoje em dia do que encontrar famílias monoparentais reconstruídas
pela integração de um novo cônjuge, o qual, por sua vez, pode igualmente trazer
consigo filhos de uma anterior união.
Se esta situação é já um cenário real na sua vida ou se existem probabilidades de o ser a prazo, saiba que mais importante do que ser chamado de pai, é a referência que você pode ser para as crianças. Como é que elas olham para si? E que exemplo lhes transmite?
Partindo da minha
experiência pessoal que já dura há praticamente 25 anos, e nunca pretendendo
ser um especialista nesta matéria, deixo, no entanto, algumas sugestões para si
que partilha uma experiência de vida similar ou que em breve abraçará um
desafio semelhante.
1º Além de adotar os filhos da sua mulher como seus, é essencial que seja também adotado por eles. É você que vai integrar esta família como novo membro e não o contrário.
2º Não desautorize a sua companheira à frente dos filhos (e vice-versa). Se houver algum conflito no casal ou divergência no que toca à educação das crianças, tratem disso em particular, procurando o consenso. Os filhos percebem facilmente quando existe desacordo entre as duas figuras adultas da casa e certamente não quererá despoletar uma guerra civil no lar onde os menores se tornem partidários de um dos lados.
3º O coração das crianças tem
muito espaço para amar e há lugar para si também, então nunca procure tomar o
lugar do pai biológico dos menores, denegrindo a sua imagem na presença deles
ou, inclusivamente, tentando afastá-los dele. Com isso, apenas demonstrará a
sua insegurança. Bem bastam os receios e inseguranças que o progenitor acaba
por projetar sobre os filhos quando percebe que existe um outro homem a cuidar
deles e a preencher o espaço que deixou vazio. Mesmo que se trate de um pai ausente
ou negligente, encoraje sempre os filhos a respeitá-lo, honrá-lo e, se
possível, a manterem um bom relacionamento com ele.
4º Não confunda autoridade com
autoritarismo. Jamais granjeará honra e respeito por parte das crianças se
insistir em fazer prevalecer a sua posição com base na agressividade, gritos ou
expressões do género "Aqui quem manda sou eu!" Para que a sua
autoridade seja reconhecida, precisa de ser firme na disciplina, demonstrar
generosamente o seu amor por elas e que as suas atitudes sejam consistentes com
as suas palavras.
5º Não tente comprar o afeto das
crianças consentindo com todas as suas vontades e caprichos. Até pode ficar com
a imagem de "fixe" e "porreiro", mas quando precisar de
impor alguma disciplina, enfrentará sérias dificuldades, não só para reverter
essa imagem, como também para que a sua autoridade seja levada a sério.
6º "Tu não és meu pai!"
- Em certas alturas de tensão familiar, e sobretudo se envolverem adolescentes,
poderá ser (se não o foi já) mimoseado com esta típica argumentação de quem não
pretende acatar ordens. Não se deixe fragilizar, encarando-a como um ataque à
sua pessoa. De facto, você não é “o pai”, mas de qualquer maneira não é isso
que está em causa e sim a obediência às regras da casa.
7º Nunca, mas nunca mesmo, obrigue a sua companheira a
escolher entre si e os filhos dela. Estes são sempre uma prioridade para
qualquer mãe que se preze, por isso, a menos que não esteja absolutamente
convicto do futuro do vosso relacionamento, arrisca-se seriamente a ficar fora
de jogo.
A confiança não é um direito adquirido. Conquista-se passo a passo, dia após dia. Então, não abrace este desafio com ansiedade mas revista-se de serenidade e paciência. Dê-se a conhecer tranquilamente às crianças ou jovens, não esquecendo que é necessário um período de ajustamento para as diferentes personalidades aprenderem a conviver na mesma casa. Tal como num casamento, uma coisa é estarem juntos ocasionalmente durante uma visita ou num programa de rua, outra bem diferente é passarem a viver 7 dias por semana debaixo do mesmo teto.
Não
sei se é suposto um pai sentir imediatamente um desmedido amor pelos filhos que
o seu sangue gerou. Sei que o amor não é um sentimento volátil, mas sim uma
decisão consciente de cada dia, nem sempre fácil. E também sei que, quando
escolhe adotar os filhos do seu cônjuge como seus, personifica o exemplo de
Deus que em Jesus nos adotou como seus filhos e espera que o adotemos como
nosso Pai. A maior recompensa nem será ser eventualmente chamado de “Pai”, mas
aprender a amar os filhos que não eram seus.
24/10/2014
AFETOS COLATERAIS
O semblante do adulto é ainda jovem, veste casualmente e
ronda a casa dos 40 anos. O rapazito, de rosto simpático, terá os seus 8 ou 9
anos e a cumplicidade entre ambos é evidente. O trajeto entre os apeadeiros
subterrâneos do metro de Lisboa é o cenário que dá continuidade às conversas e
brincadeiras que se iniciaram no madrugar de casa. A caminho da escola, pai e
filho sintonizam olhares e calibram afetos.
Há dias em que disputam concentrados a vitória nas respostas de um conhecido jogo de perguntas e respostas da televisão no 'smartphone'. Outros há em que adivinhar as personagens dos cromos da bola na mão do cachopo é o desenferrujar matinal dos neurónios. Hoje, o braço do adulto insiste em apertar a criança contra o seu peito. Esta, por sua vez, sucumbe ao afeto e, consolada, aninha repetidamente o rosto no abraço do pai, de olhos fechados. Penso: "sim, é (também) disto que deve ser feito um relacionamento entre pai e filho, de conversas secretas, cumplicidade, o toque e o olhar". Encerrados na sua bolha invisível e alheios a tudo ao redor, protagonizam uma reconfortante cena para quem, como eu, os observa.
Reconfortante como um chocolate quente num dia de Inverno, como um abraço
sentido e sem palavras, como adormecer uma criança no colo. Expressar afeto
através de um beijo, um abraço envolvente ou de um gesto de ternura conforta
quem recebe e quem dá... mas também a quem observa por perto.Corro o risco de generalizar mas, quando testemunhamos o expressar de afetos, seja entre pessoas do nosso círculo mais íntimo ou entre puros desconhecidos, sentimos um certo conforto e bem-estar. Somos como que "puxados" para o meio da cena e difícil é que esse quadro não nos arranque um sorriso ou um olhar derretido.
Mesmo que perante desconhecidos, facilmente há algum ponto em que nos revemos nesses gestos e os transportamos para os nossos laços familiares e de amizade (ou para a ausência deles), em que esses gestos nos colocam um brilho nos olhos, um sorriso no coração.
Seja qual for o nosso tipo de personalidade, espontânea e efusiva ou reservada, não tem por que ser um obstáculo à expressão dos nossos sentimentos, basta sermos criativos. Se não nos sentimos confortáveis em verbalizá-los, podemos manifestá-los sob forma escrita, por gestos e atitudes. A imaginação é o nosso limite.
Na Bíblia, existe um relato (1) em que Deus afirma publicamente o seu amor por Jesus numa declaração que causa impacto, não apenas no próprio Jesus, mas também nos discípulos que o acompanham, mesmo que não a compreendendo. E, logo de seguida, um Messias que acalma os discípulos por meio do toque. Tal como o seu toque abençoava as crianças (2). Quando os apóstolos Paulo e Silas foram encarcerados numa masmorra, por volta da meia-noite "cantavam hinos" a Deus, o que foi certamente uma lufada de ar fresco para os demais prisioneiros que, admirados, os escutavam (3).
O poder de simples afetos é extraordinário. Um sorriso descarado ou um inesperado piscar de olho funcionam como quebra-gelo. Têm a capacidade de desarmar o espírito mal-humorado. Onde quer que aconteçam, são bálsamo para almas carregadas e deprimidas, inspiram bons sentimentos, desanuviam mentes conturbadas e mudam atmosferas pesadas.
O combóio detém-se. Saímos na mesma estação, mas separamo-nos em direções opostas. À minha volta, o ar é agora mais leve.
1) Mateus 17:5-8
2) Mateus 19:13-15
3) Atos 16:23-25
Carlos Pinto Leite
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